Meu nome é Aurélio!
Meu nome é Aurélio, o único nome da língua portuguesa que possui as cinco vogais. Sem repetir! Aureliano também possui as cinco vogais, mas o “a” se repete. Pelo menos assim eu achava...
Aurélio era o nome de meu pai. Talvez essa seja a razão pela qual os nomes estranhos nunca morrem. Há sempre alguém disposto a homenagear um tio chamado Domóstenes. Ou Euclides. Ou Valdemar. Tenho um amigo, que tem uma irmã, que tem um amigo cujo nome é Lorestin. Lorestin Bisneto! Como falei, há sempre alguém disposto a homenagens... No meu caso, acredito ter dado sorte por meu pai ser apenas Aurélio. O único nome que possui as cinco vogais, sem repetir.
Cresci ouvindo isso. Na verdade, quando me dei conta que meu nome era totalmente diferente do nome das outras crianças e que não havia (nem nunca haveria) outro Aurélio, acabei por implicar com meu nome. Era naquela época também o nome do dicionário mais vendido. Imagina eu, um dicionário? Eu poderia ter sido um Bruno, um Leonardo ou um Felipe. Mas as malditas homenagens... Nem servia para eu ser o primeiro da chamada. Sempre tinha uma Ana ou um André. Às vezes um Alberto. Logo, até nisso fiquei para trás. Meu pai sempre tentou minimizar a situação e trazer o lado bom dessa situação. Ouvi essa história das cinco vogais durante quinze anos. Até o dia em que ele morreu e eu fiquei sendo o único Aurélio da minha casa.
Um pouco antes disso, eu fui estudar num colégio diferente. Por uma dessas sortes que se dá poucas vezes na vida, fiquei sendo conhecido pelo meu sobrenome. Magalhães. Ok, ficou melhor. Com o tempo, acabei virando o Magal. Maguito às vezes também. Mas fundamentalmente Magal. Eu adorava! Chega de Aurélio!
Meus amigos sempre souberam da peculiaridade do meu nome. Alguns deles pegavam carona com meu pai com mais freqüência, como o Gustavo, Mario, Marquinhos e o Tiago (aliás, Bandeira. Viva os sobrenomes!). Como éramos todos reféns da carona do meu pai, todos ouvíamos as histórias por trás do pomposo nome Aurélio. Logo, o fato das cinco vogais do meu nome era de domínio público. A cada vez que eu me apresentava, especialmente para garotas, ouvia-se o coro, uníssono: “Aurélio é o único nome da língua portuguesa que tem as cinco vogais sem repetir. Aureliano tem também, mas repete o “a””.
Durante anos foi assim.
Até que um dia não foi mais.
O ano era 1995. Eu passava o natal daquele ano na casa do Bandeira e éramos provavelmente uns doze rapazes entre 15 e 21 anos. Alguns com namoradas, outros não. E foi uma dessas namoradas que acabou com a mística do nome Aurélio. Luciana era seu nome.
A meia-noite já havia passado há muito e as cervejas ainda desciam redondamente pelas gargantas dos ávidos adolescentes, quando Vitor chegou à festa acompanhado por sua namorada Luciana. Vítor tinha um irmão gêmeo e era namorado de Luciana havia uns anos. Talvez um ano. Fato é que Luciana era muito tímida e raramente falava alguma coisa. Muda praticamente. Muito tímida. Os protocolos foram seguidos e fomos apresentados formalmente. Bandeira, o anfitrião, fez as honras:
- Luciana, esse aqui é o Magal. O nome dele é Aurélio... – E o coro continuou:
- ... o único nome da língua portuguesa que possui as cinco vogais sem repetir, porque Aureliano repete!
A gargalhada foi generalizada. Luciana, tímida, meio sem graça, apenas esboçou um tímido sorriso.
Não se passaram mais do que quinze minutos, para se ouvir uma gargalhada num canto da sala. Era Vitor. Nada de anormal. Acontece que a gargalhada ficou mais intensa, Vitor começou a ficar vermelho, seu dermografismo saltou aos olhos e Vitor já não conseguia mais se controlar. Luciana num canto, constrangida, também sorria. Mas um sorriso de culpa. Sentia-se mal.
Vitor não se continha e atraía todas as atenções. Ele não conseguia controlar o riso, nem o próprio corpo e balbuciava uma palavra sem nexo. E repetia essa palavra exaustivamente e continuava rindo, apontando para mim e rindo. Luciana tentava acalmar o namorado. Mas era em vão. Vitor caiu no chão e não se conteve. Lágrimas rolavam de seus olhos e gargalhadas de sua boca.
Até que, como que por encanto, Vitor conseguiu falar algo com nexo:
- A família dela tem um monte de nomes estranhos... – E apontou para Luciana, ainda completamente fora de si. Gargalhava e repetia:
- Caiu um mito, caiu um mito, caiu um mito!
Todos estavam curiosos. Foi quando ele falou:
- Claudemiro!!! Claudemiro!!! Claudemiro, porra!!!
Houve um silêncio sepulcral. Todos ouviram aquele nome e começaram a se perguntar:
- E daí?
- E daí? Porra, Claudemiro! C-L-A-U-D-E-M-I-R-O!!!
Foi o Gustavo que pescou:
- Caralho, tem as cinco vogais...
O silêncio se aprofundou. Todos se entreolhavam incrédulos. Até que eu mesmo irrompi numa grande risada. Inevitavelmente fui seguido por todos. Gargalhamos todos por uns cinco minutos. E ainda rimos dessa história.
Hoje em dia, ainda me apresento como Aurélio. Mas não digo mais que meu nome é o único com as cinco vogais sem repetir. Agora digo que é o mais bonito nome da língua portuguesa, que possui as cinco vogais sem repetir, visto que Aureliano repete e Claudemiro é feio...
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
sábado, 2 de janeiro de 2010
A cerimônia
O apresentador da cerimônia falou:
- Leonardo José Macedo Alves.
Não lembrava qual era a música que tocou depois do nome de Leonardo ser chamado, mas era um rock pesado. Daqueles que eu ouvia quando era adolescente, recém chegado ao Rio de Janeiro. Naquela época, o quartel era a grande saída para pessoas vindas do norte e do nordeste, como eu. Vivíamos a ditadura militar e era grande o prestígio e o poder das forças armadas. E meus amigos do quartel gostavam muito deste tipo de rock. Não sabia que meu filho gostava dela assim, a ponto de ser lembrado em sua formatura por tal música.
Após o chamado do apresentador, minha mulher, meus outros dois filhos e meu irmão Pedro, se levantaram e aplaudiram Leonardo, como, aliás, todo o auditório. Todo, menos eu. Não conseguia. Naquele momento, começou a passar o filme de minha vida em minha cabeça e me transportei à Bahia.
O ano era 1952 e aquele verão até que foi ameno. Eu era o terceiro filho de seis. Dos meus dois irmãos mais velhos, um já tinha morrido de barriga d’água; o outro tinha ido morar com uma tia na cidade vizinha. Invariavelmente passávamos fome, especialmente à noite, e eu tinha que olhar meus outros três irmãos.
Numa destas noites, com papai ainda na roça e mamãe terminando o jantar, Pedro, meu irmão logo abaixo de mim, me confidenciou:
- Eu quero fugir!
- Fugir pra onde?
- Não sei, só sei que eu quero trabalhar, prá ganhar meu dinheiro e não precisar mais dividir minha comida com ninguém!
Uma semana depois, Pedro fugiu (sua história de vida daria um livro inteiro e não somente um conto mal escrito, como a minha). E aquele fato ficou na minha cabeça por muito tempo, acabando por me motivar a também a sair daquela situação. Reencontrei Pedro vinte e sete anos depois e dei meu pequeno Leonardo para ele batizar. Pedro, meu irmão mais novo, foi meu grande exemplo.
Caí em mim de novo e olhei para o lado. Vi Pedro orgulhoso do afilhado, com uma expressão de vitória no rosto. A mesma que vi quando do nosso reencontro. Vitória sobre o destino. Vitória sobre a inércia da vida. Pedro começou como servente de uma editora de livros médicos e hoje é dono desta editora.
Agora éramos os únicos ainda vivos dos sete, sobreviventes daqueles tempos. Minha mãe morrera havia seis meses, meu pai e outros irmãos havia muitos anos. As coisas tinham mudado muito. Não passávamos mais fome, vivíamos sob os auspícios do grande Pedro em casas confortáveis e com comida farta.
A cerimônia seguiu com mais alguns formandos sendo chamados, até que chegou na hora das homenagens. Professores, pacientes, funcionários, pais ausentes... Realmente é um momento emocionante, lembrei da falta que meus pais me fizeram quando cheguei aqui, quase como um refugiado de guerra, vindo do sertão. O exército me deu a chance de não morrer de fome e de aprender uma profissão. Por sorte, fui servir no HCE (Hospital Central do Exército) e acabei ficando muito próximo do que sempre quis. Desde criança eu tinha um sonho: queria ser médico. Eu tratava das galinhas lá de casa, fazia autópsias em sapos, aplicava injeções em laranjas... Acabei me formando técnico em enfermagem e instrumentador cirúrgico. Naquele momento, o exército era o meu “pai” ausente e me emocionei como uma senhora ao meu lado.
Eu nunca fui muito próximo a Leonardo. Não sabia muito bem seus gostos, com quantas mulheres havia se deitado, seus autores favoritos. Sempre precisei trabalhar muito, de sol a sol, pois não queria uma vida igual à minha para meus filhos. Sabe, é aquela sensação: você sai da seca, mas a seca nunca sai de você. Você sempre acha que um dia aquilo tudo de bom que você tem vai acabar, como num passe de mágica, e você vai abrir os olhos e o Sol estará te castigando. É por isso também que eu odeio amarelo. Nada é mais seco do que o amarelo. Amarelo Sol, amarelo barro, amarelo fel. Logo, a única saída é fazer o máximo enquanto há tempo e forças para isso. Nem que isso signifique a distância dos filhos e da família.
Foi uma grande surpresa para mim quando soube que Leonardo seria o orador da turma. O vestibular já tinha sido um grande feito, obviamente, e sua trajetória brilhante na faculdade de medicina também. Mas ser o orador, ter escrito o texto final de sua formatura, realmente era uma coisa inusitada para este pai. E foi quando chamaram seu nome, para falar em nome da turma, que meu estômago ficou pequenino, meus olhos encharcaram, minha mente enegreceu e eu me senti escorrendo pela cadeira. Meu filho, filho de um retirante, orador de uma turma de médicos.
O discurso começou assim: “Eu cheguei até aqui por causa dos meus pais. Acredito que boa parte dos meus queridos amigos formandos de hoje também. São nossos pais que fundamentam nosso caminho, nos dão ferramentas para lutar e nos dão o colo para descansar. São eles o início de tudo.”. Foi um golpe certeiro no meu autocontrole. Lembrei-me de uma das poucas vezes em que lemos algo juntos. Naquele dia, a última cirurgia do dia fora suspensa e eu cheguei em casa pouco antes das dez da noite. Ainda a tempo de contar uma história antes de Leonardo dormir. Sentei-me ao seu lado, puxei um livro da escrivaninha e comecei a ler. Era “Reinações de Narizinho”. Monteiro Lobato era minha leitura favorita quando criança. Não foram mais do que quinze minutos até Leonardo dormir, e eu a chorar. A vida me massacrava. Fisicamente e psicologicamente. Hoje, com meu filho no alto do palco falando para uma platéia de pessoas com instrução, vejo que o sacrifício valeu. Na época eu não sabia se valeria. Eu tinha dúvidas relacionadas a mim, às minhas escolhas e ao mundo em volta de mim.
O discurso seguiu, falando dessa vez sobre “se tornar adulto”. Eis o trecho: “No fundo é isso o que acontece quando entramos na faculdade: começamos a deixar de ser dependentes. O fim da faculdade encerra um ciclo e inicia outro. Para alguns, o último. Tornamo-nos adultos. De certa maneira, se tornar adulto é apenas mais uma dificuldade dessa estrada. Mas certamente a mais dolorosa.”. Eu ME lembro quando virei adulto. Foi doloroso quando, ainda criança, cuidando de meu irmão, sonhando com um pedaço maior de carne, meu pai morreu. Pedro já tinha fugido e o menor já tinha morrido. Ficamos apenas três, dos nove. Minha mãe virou-se pra mim e falou: “Você agora é o homem da casa”. E foi aí que a vida começou seu massacre comigo.
Não sei se todos ali presentes tinham uma história como a minha, certamente não. Alguns provavelmente com uma história pior, outros não. Neste exato instante, Leonardo falou uma frase que eu costumava ouvir de um grande anestesiologista amigo meu, Dr. Wagner, e que lhe disse no dia que ele entrou na faculdade: “O bom médico traz consigo três C’s: competência, compaixão e compromisso.”. Ali vi minha missão cumprida. Todo o sacrifício se transformou numa família unida, feliz, realizada e orgulhosa do que viveu. Olhei para o lado e vi Pedro, minha mulher e meus outros dois filhos mais novos. Todos com uma expressão de vitória no rosto. A vida tinha me massacrado, nos massacrado, mas nós tínhamos vencido a vida.
O apresentador da cerimônia falou:
- Leonardo José Macedo Alves.
Não lembrava qual era a música que tocou depois do nome de Leonardo ser chamado, mas era um rock pesado. Daqueles que eu ouvia quando era adolescente, recém chegado ao Rio de Janeiro. Naquela época, o quartel era a grande saída para pessoas vindas do norte e do nordeste, como eu. Vivíamos a ditadura militar e era grande o prestígio e o poder das forças armadas. E meus amigos do quartel gostavam muito deste tipo de rock. Não sabia que meu filho gostava dela assim, a ponto de ser lembrado em sua formatura por tal música.
Após o chamado do apresentador, minha mulher, meus outros dois filhos e meu irmão Pedro, se levantaram e aplaudiram Leonardo, como, aliás, todo o auditório. Todo, menos eu. Não conseguia. Naquele momento, começou a passar o filme de minha vida em minha cabeça e me transportei à Bahia.
O ano era 1952 e aquele verão até que foi ameno. Eu era o terceiro filho de seis. Dos meus dois irmãos mais velhos, um já tinha morrido de barriga d’água; o outro tinha ido morar com uma tia na cidade vizinha. Invariavelmente passávamos fome, especialmente à noite, e eu tinha que olhar meus outros três irmãos.
Numa destas noites, com papai ainda na roça e mamãe terminando o jantar, Pedro, meu irmão logo abaixo de mim, me confidenciou:
- Eu quero fugir!
- Fugir pra onde?
- Não sei, só sei que eu quero trabalhar, prá ganhar meu dinheiro e não precisar mais dividir minha comida com ninguém!
Uma semana depois, Pedro fugiu (sua história de vida daria um livro inteiro e não somente um conto mal escrito, como a minha). E aquele fato ficou na minha cabeça por muito tempo, acabando por me motivar a também a sair daquela situação. Reencontrei Pedro vinte e sete anos depois e dei meu pequeno Leonardo para ele batizar. Pedro, meu irmão mais novo, foi meu grande exemplo.
Caí em mim de novo e olhei para o lado. Vi Pedro orgulhoso do afilhado, com uma expressão de vitória no rosto. A mesma que vi quando do nosso reencontro. Vitória sobre o destino. Vitória sobre a inércia da vida. Pedro começou como servente de uma editora de livros médicos e hoje é dono desta editora.
Agora éramos os únicos ainda vivos dos sete, sobreviventes daqueles tempos. Minha mãe morrera havia seis meses, meu pai e outros irmãos havia muitos anos. As coisas tinham mudado muito. Não passávamos mais fome, vivíamos sob os auspícios do grande Pedro em casas confortáveis e com comida farta.
A cerimônia seguiu com mais alguns formandos sendo chamados, até que chegou na hora das homenagens. Professores, pacientes, funcionários, pais ausentes... Realmente é um momento emocionante, lembrei da falta que meus pais me fizeram quando cheguei aqui, quase como um refugiado de guerra, vindo do sertão. O exército me deu a chance de não morrer de fome e de aprender uma profissão. Por sorte, fui servir no HCE (Hospital Central do Exército) e acabei ficando muito próximo do que sempre quis. Desde criança eu tinha um sonho: queria ser médico. Eu tratava das galinhas lá de casa, fazia autópsias em sapos, aplicava injeções em laranjas... Acabei me formando técnico em enfermagem e instrumentador cirúrgico. Naquele momento, o exército era o meu “pai” ausente e me emocionei como uma senhora ao meu lado.
Eu nunca fui muito próximo a Leonardo. Não sabia muito bem seus gostos, com quantas mulheres havia se deitado, seus autores favoritos. Sempre precisei trabalhar muito, de sol a sol, pois não queria uma vida igual à minha para meus filhos. Sabe, é aquela sensação: você sai da seca, mas a seca nunca sai de você. Você sempre acha que um dia aquilo tudo de bom que você tem vai acabar, como num passe de mágica, e você vai abrir os olhos e o Sol estará te castigando. É por isso também que eu odeio amarelo. Nada é mais seco do que o amarelo. Amarelo Sol, amarelo barro, amarelo fel. Logo, a única saída é fazer o máximo enquanto há tempo e forças para isso. Nem que isso signifique a distância dos filhos e da família.
Foi uma grande surpresa para mim quando soube que Leonardo seria o orador da turma. O vestibular já tinha sido um grande feito, obviamente, e sua trajetória brilhante na faculdade de medicina também. Mas ser o orador, ter escrito o texto final de sua formatura, realmente era uma coisa inusitada para este pai. E foi quando chamaram seu nome, para falar em nome da turma, que meu estômago ficou pequenino, meus olhos encharcaram, minha mente enegreceu e eu me senti escorrendo pela cadeira. Meu filho, filho de um retirante, orador de uma turma de médicos.
O discurso começou assim: “Eu cheguei até aqui por causa dos meus pais. Acredito que boa parte dos meus queridos amigos formandos de hoje também. São nossos pais que fundamentam nosso caminho, nos dão ferramentas para lutar e nos dão o colo para descansar. São eles o início de tudo.”. Foi um golpe certeiro no meu autocontrole. Lembrei-me de uma das poucas vezes em que lemos algo juntos. Naquele dia, a última cirurgia do dia fora suspensa e eu cheguei em casa pouco antes das dez da noite. Ainda a tempo de contar uma história antes de Leonardo dormir. Sentei-me ao seu lado, puxei um livro da escrivaninha e comecei a ler. Era “Reinações de Narizinho”. Monteiro Lobato era minha leitura favorita quando criança. Não foram mais do que quinze minutos até Leonardo dormir, e eu a chorar. A vida me massacrava. Fisicamente e psicologicamente. Hoje, com meu filho no alto do palco falando para uma platéia de pessoas com instrução, vejo que o sacrifício valeu. Na época eu não sabia se valeria. Eu tinha dúvidas relacionadas a mim, às minhas escolhas e ao mundo em volta de mim.
O discurso seguiu, falando dessa vez sobre “se tornar adulto”. Eis o trecho: “No fundo é isso o que acontece quando entramos na faculdade: começamos a deixar de ser dependentes. O fim da faculdade encerra um ciclo e inicia outro. Para alguns, o último. Tornamo-nos adultos. De certa maneira, se tornar adulto é apenas mais uma dificuldade dessa estrada. Mas certamente a mais dolorosa.”. Eu ME lembro quando virei adulto. Foi doloroso quando, ainda criança, cuidando de meu irmão, sonhando com um pedaço maior de carne, meu pai morreu. Pedro já tinha fugido e o menor já tinha morrido. Ficamos apenas três, dos nove. Minha mãe virou-se pra mim e falou: “Você agora é o homem da casa”. E foi aí que a vida começou seu massacre comigo.
Não sei se todos ali presentes tinham uma história como a minha, certamente não. Alguns provavelmente com uma história pior, outros não. Neste exato instante, Leonardo falou uma frase que eu costumava ouvir de um grande anestesiologista amigo meu, Dr. Wagner, e que lhe disse no dia que ele entrou na faculdade: “O bom médico traz consigo três C’s: competência, compaixão e compromisso.”. Ali vi minha missão cumprida. Todo o sacrifício se transformou numa família unida, feliz, realizada e orgulhosa do que viveu. Olhei para o lado e vi Pedro, minha mulher e meus outros dois filhos mais novos. Todos com uma expressão de vitória no rosto. A vida tinha me massacrado, nos massacrado, mas nós tínhamos vencido a vida.
O discurso de Leonardo
Eu cheguei até aqui por causa dos meus pais. Acredito que boa parte dos meus queridos amigos formandos de hoje também. São nossos pais que fundamentam nosso caminho, nos dão ferramentas para lutar e nos dão o colo para descansar. São eles o início de tudo.
Lembro-me bem do primeiro dia de aula, da insegurança que sentia, do “frio na barriga” do desconhecido, do medo dos veteranos. Mas aos poucos isso passou. Eu dominei meus medos, conquistei meu lugar. Tenho certeza de que foi assim com todos aqui. O início é duro. Temos que estudar e aprender coisas que nunca ouvimos falar, estudar de uma maneira diferente e menos dependente. No fundo é isso o que acontece quando entramos na faculdade: começamos a deixar de ser dependentes. O fim da faculdade encerra um ciclo e inicia outro. Para alguns, o último. Tornamo-nos adultos.
De certa maneira, se tornar adulto é apenas mais uma dificuldade dessa estrada. Mas certamente a mais dolorosa. E é isso que nos espera em muitos momentos: dor. Dor e medo. Dor, medo e insegurança. Certamente não é só isso, mas é isso o que nos deixa abalados. O medo de errar, insegurança com o primeiro doente, a dor da primeira perda. Acontecerá com TODOS. Mas é por isso que estamos aqui hoje. Foi para isso que chegamos até aqui. Estudamos seis anos para isso. Para que a dor, o medo e a insegurança que encontraremos fiquem em seus lugares, visto que são necessários. Que a insegurança seja tolerável e nos torne humildes, que a dor seja apenas um alarme, que o medo seja o impulso para o aprimoramento.
Sejamos médicos de corpo e alma. Afinal, medicina é sim sacerdócio. É o mais próximo do sobrenatural que um homem comum pode chegar. É arte, no sentido que a palavra conota, visto fazer emocionar, trazer felicidade e vida ao homem. Portanto, sejamos bons!
Uma vez me disseram que o bom médico trazia consigo três C’s: competência, compaixão e compromisso. Eu acrescento mais um: coragem. Competência, porque é o mínimo. Compaixão, porque devemos isso à humanidade: não esqueçamos que tratamos de semelhantes. Compromisso, porque fizemos um juramento. Coragem para enfrentar os males da profissão e as armadilhas da dura vida que levaremos daqui para frente.
Espero que não falte nenhum destes C’s a nós, companheiros, e que os dias de alegria sejam inspiradores, que os de tristeza façam refletir e que tenhamos saúde, felicidade e sorte ao longo da nossa jornada aqui na Terra. Obrigado e boa noite a todos.
Eu cheguei até aqui por causa dos meus pais. Acredito que boa parte dos meus queridos amigos formandos de hoje também. São nossos pais que fundamentam nosso caminho, nos dão ferramentas para lutar e nos dão o colo para descansar. São eles o início de tudo.
Lembro-me bem do primeiro dia de aula, da insegurança que sentia, do “frio na barriga” do desconhecido, do medo dos veteranos. Mas aos poucos isso passou. Eu dominei meus medos, conquistei meu lugar. Tenho certeza de que foi assim com todos aqui. O início é duro. Temos que estudar e aprender coisas que nunca ouvimos falar, estudar de uma maneira diferente e menos dependente. No fundo é isso o que acontece quando entramos na faculdade: começamos a deixar de ser dependentes. O fim da faculdade encerra um ciclo e inicia outro. Para alguns, o último. Tornamo-nos adultos.
De certa maneira, se tornar adulto é apenas mais uma dificuldade dessa estrada. Mas certamente a mais dolorosa. E é isso que nos espera em muitos momentos: dor. Dor e medo. Dor, medo e insegurança. Certamente não é só isso, mas é isso o que nos deixa abalados. O medo de errar, insegurança com o primeiro doente, a dor da primeira perda. Acontecerá com TODOS. Mas é por isso que estamos aqui hoje. Foi para isso que chegamos até aqui. Estudamos seis anos para isso. Para que a dor, o medo e a insegurança que encontraremos fiquem em seus lugares, visto que são necessários. Que a insegurança seja tolerável e nos torne humildes, que a dor seja apenas um alarme, que o medo seja o impulso para o aprimoramento.
Sejamos médicos de corpo e alma. Afinal, medicina é sim sacerdócio. É o mais próximo do sobrenatural que um homem comum pode chegar. É arte, no sentido que a palavra conota, visto fazer emocionar, trazer felicidade e vida ao homem. Portanto, sejamos bons!
Uma vez me disseram que o bom médico trazia consigo três C’s: competência, compaixão e compromisso. Eu acrescento mais um: coragem. Competência, porque é o mínimo. Compaixão, porque devemos isso à humanidade: não esqueçamos que tratamos de semelhantes. Compromisso, porque fizemos um juramento. Coragem para enfrentar os males da profissão e as armadilhas da dura vida que levaremos daqui para frente.
Espero que não falte nenhum destes C’s a nós, companheiros, e que os dias de alegria sejam inspiradores, que os de tristeza façam refletir e que tenhamos saúde, felicidade e sorte ao longo da nossa jornada aqui na Terra. Obrigado e boa noite a todos.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
JJ Silva
Prólogo
Joaquim era um menino pobre, de uma cidade violenta. Recebera esse nome para ficar homônimo do mártir da independência de seu país. Joaquim José da Silva Xavier era seu nome. Por alguma razão completamente desconhecida cresceu apaixonado por cinema. Seu maior ídolo era William Friedkin. Não por “Operação França”, mas sim por “O exorcista”. Fascinava ao menino, a menina de sua idade possuída pelo demônio e enquanto Regan revirava os olhos, seus olhos brilhavam diante da tela.
Cresceu obcecado pela idéia de melhorar de vida, se possível aliando seus maiores sonhos: cinema e exorcismo. Sim, influenciado pelo filme de sua infância tornou-se pastor evangélico e especializou-se em retirar o mal de dentro das pessoas. Não importava o método. Nem a câmera que usava. Sim, criou um negócio muito rentável: vendia as fitas de seus exorcismos a camelôs, que as revendiam e todos saíam ganhando. Sem pagar impostos, sem empregar ninguém (os empregadores eram seus seguidores), sem se importar com as vítimas e suas famílias, que estavam fragilizadas demais para impedir as filmagens.
Com o volume enorme de pedidos por mais filmes e mais exorcismos, JJ Silva, como fez questão de ser conhecido, montou um império financeiro e com isso pode atingir seus maiores sonhos. Era o mais famoso exorcista do Brasil e o mais bem sucedido diretor de cinema, economicamente falando. Foi quando se deparou com seu maior desafio. E que lhe custaria tudo.
A chuva inundava parte da entrada do Morro do Urubu, restando apenas a entrada pela Rua Silva Xavier. Coincidência ou não, talvez aquele fosse um bom sinal para a ação que iria fazer naquele lugar. Ação era como JJ chamava seus exorcismos. Talvez para não assustar quem não o conhecesse. Mas ainda havia alguém que não o conhecesse? Talvez não, especialmente após seu último vídeo, sucesso absoluto no youtube. O mais bizarro, é que a pirataria apenas fazia aumentar a venda dos seus DVDs caseiros. De qualquer maneira, JJ não gostava de voltar ao lugar de sua origem, mas pensou que se esta ação lhe rendesse um bom vídeo, valeria à pena. E entrar na favela pela rua que tinha seu nome, lhe fez pensar que isto era um bom sinal.
Seu jipe seguia subindo o morro, ganhando altura e distância do asfalto. As leis, regras e códigos de conduta mudavam à medida que o Land Rover avançava em direção à casa 6, da alameda 11. Faltando cem metros para chegarem ao destino, foram parados por cinco homens armados de fuzis e metralhadoras. JJ já se acostumara com visitas a lugares controlados por traficantes e milícias e nunca ia desprevenido ou desprovido de uma autorização do dono do lugar. Se possível, por escrito. Aquele que parecia o chefe do grupo abordou os quatro homens dentro do Land Rover de maneira bastante educada e sutil:
- Vai prá onde, porra? Que que tu qué aqui no morro o filhodaputa?
- Somos a equipe do pastor JJ Silva, e viemos curar uma menina na casa 6, alameda 11.
- Porra, daquele DVD do demônio? Caralho maluco, sabia que a Natália ‘tava fudida assim não. Ela é parceira da galera toda aqui. Mó mina namoral! Me bota na parada também porra. Quero ficá famosão!
- Infelizmente não é possível. Eu já tenho tudo certo com o Linho e ele me deu permissão para irmos até a casa. Estamos atrasados.
- Pô pastor, foi mal aí. Pode ir na boa, Deus abençoe. Mas tem que deixar o carro aqui. Fica sussa que tá na minha.
Os últimos cem metros foram percorridos à pé. JJ amaldiçoou sua mulher que tinha separados sapatos italianos para a ação de hoje: “Você fica muito bem no vídeo com eles”, ela disse. Realmente ficaria bem se eles chegassem inteiros ao barraco.
A casa, se é pode ser chamada assim, estava um caos total. Totalmente revirada, todas as roupas jogadas pela sala e pelo quarto, os móveis no chão e velas acesas punham em risco a segurança de todos. Uma mulata gorda, com o cabelo muito branco e cega do olho direito, rezava ao lado da cama onde Natália se deitava. A luz do Sol não entrava na casa e o cheiro de mofo era misturado ao de urina, provavelmente por causa de uma privada entupida. A falta de luz solar (era um dia chuvoso) e as condições precárias de trabalho irritaram JJ Silva, que temeu pela qualidade de seu vídeo. Chegou a pensar em desistir, mas a menina era sobrinha de Linho, chefe do morro. Achou melhor prosseguir, mesmo em condições ruins. Havia feito um trato com Linho: salvação da menina, vídeo divulgado e vendido. O trato foi aceito sem concessões.
JJ olhou a mulata cega com desdém e pediu que ela se retirasse. Ao tocar o braço da velha para acompanhá-la até a porta, Natália avançou com rapidez e lhe desferiu um violento tapa com o dorso da mão esquerda. A força parecia desproporcional para uma menina de 13 anos e JJ, que nunca havia sido tocado por um cliente, sentiu algo diferente. O ar parecia mais pesado que o normal, o cheiro de urina e mofo misturados quase o sufocava e sua visão ficara turva após o tapa. A mulata sussurrou algo em seu ouvido e JJ deu de ombros. Tentou se recompor e pediu que seu ajudantes montassem a parafernália para gravação da ação. Foi prontamente atendido.
- Daniel, desse lado não. Você sabe que meu melhor perfil é desse lado. Vocês realmente precisam de aulas de fotografia, enquadramento e corte de cenas. Semana passada o João quase me fez vomitar. Parecia “A Bruxa de Blair”.
Um riso tenso ecoou na sala. Era Jonas, o motorista. Jonas era o único que não era evangélico, mas já trabalhavam juntos há vinte anos. Ou seja, desde o início. Jonas era amigo de infância de JJ, e apesar dos arroubos e das humilhações de seu amigo, estava sempre presente. Mesmo nos piores momentos. O riso tenso e o ceticismo eram sua marca registrada.
Após vinte minutos de preparação técnica, JJ conseguiu se recompor e começar a ação. As câmeras foram ligadas, uma luz artificial também. A mulata, agora do lado de fora da sala, continuava rezando, cada vez mais alto, e numa língua que ninguém entendia. Ao se virar para a mulher pedindo silêncio, JJ foi surpreendido mais uma vez com a interrupção de Natália:
- Cala a boca você, viadinho engomado do caralho. Vai se fuder e sai daqui agora, seu merda!
JJ se voltou aos assistentes e falou:
-Liguem tudo agora. Vou começar.
JJ começou a orar. A oração continha palavras de ordem contra Satanás, louvações a Deus e de certa forma parecia como um hino de vitória. Ca(o)ntada antes do tempo. A mulata seguia suas rezas, num canto, cada vez mais alto, pois não havia se intimidado com o pedido de silêncio de JJ. Aliado a essas duas músicas, ao fundo podia se ouvir o funk proibidão da casa vizinha. Sem dúvidas o cenário era aterrador: em qualquer dos quatro sentidos, você se sentiria oprimido. Seja pela visão de uma menina transfigurada em monstro e pela casa em estado caótico, seja pelo cheiro de urina e mofo, seja pela música dissonante resultada da mistura de cântico evangélico, funk proibido e oração inteligível. A opressão do tato era dada pelo clima da casa: quente, apesar da chuva e pesado.
Infelizmente um filme não consegue captar toda essa miríade de sensações, e JJ também não era um diretor tão talentoso assim. A câmera o pegava no ângulo adequado, o som estava ajustado. Começara o show!
- Sai desse corpo, Íncubo maldito! Eu te comando para fora desta menina, Natália, a serva de Deus! Em nome do senhor Jesus!
- Não saio, ela pertence a mim e nada, nem ninguém vai tirá-la de mim. Eu sou invencível!
- Eu sou o representante de Deus, aquele que já te derrotou tantas vezes, eu já te derrotei tantas vezes. Eu é que nunca fui batido, nem por você, nem por ninguém! Eu sou o instrumento de Deus e pelas minhas mãos ele vai te mandar de volta, coisa ruim.
- Esse vídeo será sua ruína, Joaquim. – Natália disse com uma voz pesada, lúgubre. Sua face se ficou encrespada e a impressão é a que ela crescera alguns centímetros. Minutos após menina parecia tranqüila e serena, não passava mais a impressão de demoníaca de antes. Na verdade neste momento, a mulata parara de rezar e tinha vindo ao seu lado e falara-lhe algo ao pé do ouvido.
JJ respondeu às palavras da menina com um violento soco em seu nariz, fazendo o sangue espirrar e a mulata se afastar. A menina continuara serena e plácida. Ao que JJ analisou como um insulto do maldito Íncubo e investiu de novo sobre ela. Dessa vez, Natália tentou se defender, mas não foi capaz de desviar do soco em sua barriga, na altura do plexo celíaco. E levou outro soco na altura da mandíbula. Ao ver a menina ter muitas dificuldades de respirar, Jonas e Daniel se assustaram. Nunca tinham visto JJ ser violento desta maneira. Sempre houve socos, chutes, submissão física. Está nos manuais de exorcismo. Mas nunca com tanta violência em tão pouco tempo.
JJ, que parecia fora de si, continuou a espancar a menina, esquecendo da ação propriamente dita. A mulata continuava a rezar, desta vez em direção a JJ. Parecia até dizer Joaquim algumas vezes. Percebendo seu descontrole, Jonas tentou desligar a câmera e acalmar o amigo. JJ o repreendeu veementemente dizendo que este seria seu melhor vídeo até hoje. E continuou o espancamento. Sob os olhares cúmplices de João, Daniel, Jonas e da mulata, que a esta altura se encolhera num canto e via o espetáculo grotesco crescer a olhos vistos. Sem nunca parar de rezar. Natália já parecia desacordada e JJ ainda estava descontrolado. Batia na menina enquanto proferia palavras de baixo calão em direção a ela e à mulata. Sem nunca deixar o nome de Deus de fora.
Após 45 minutos de espancamento e hinos religiosos entoados à exaustão, JJ se deu por satisfeito. Tinha sua obra prima.
Natália respirava com dificuldades e o sangue lhe escorria pelo ouvido e pelo nariz, enquanto JJ falava com a família da menina e ia em direção ao seu Land Rover. Linho tinha ido ao Morro, mas não conseguira ir até a casa do irmão, mas tinha deixado um agradecimento ao grande pastor JJ Silva e a certeza de apoio da comunidade nas eleições do próximo ano.
Ao entrar no carro, JJ parecia satisfeito com sua ação do dia. Mal vira a mulata o fuzilar com o olhar.
Epílogo
Nair chegou ao IML no mesmo horário de sempre e não ficou muito surpresa quando viu o corpo de uma menina de 13 anos em sua mesa. É muito comum jovens morrerem numa cidade violenta como o Rio de Janeiro. Mesmo de espancamento. Por isso, Nair não ficou surpresa ao ler o prontuário. Ficou surpresa ao levantar o lençol. Melhor dizendo, ficou intrigada com alguns nódulos no corpo da menina. Lembrou-se dos tempos da clínica médica e pensou: “Gomas sifilíticas”. Ficou intrigada. Pediu um exame do nódulo e não ficou surpresa. Natália tinha Sífilis terciária, uma fase avançada da doença. De qualquer maneira, era muito estranho que uma criança de 13 anos tivesse uma fase tão avançada da doença. Nair nunca saberia a resposta a esta pergunta. Só sabia que esta doença causa transtornos de comportamento. O nome do seu Íncubo era Treponema Pallidum. Sífilis tem tratamento e quando tratada em suas fases iniciais tem cura, e o tratamento é ministrado de graça nos postos de saúde da cidade do Rio de Janeiro.
Dez dias após, um inexperiente jornalista recém contratado por prestigioso jornal da cidade, ao ir ao IML para fazer a cobertura de sempre, viu o relatório sobre a mesa de Nair, que era sua fonte. Ficou intrigado com a história de uma menina de 13 anos ter morrido espancada, aparentemente sem motivo algum e ao mesmo tempo ter sífilis terciária, como estava no relatório, acompanhado de gigantesco ponto de interrogação. Fábio era seu nome, e Fábio era fã dos vídeos de JJ. Logo a reconheceu e ligou os pontos. O maior sucesso do agora Bispo JJ Silva, era na verdade uma prova de assassinato.
Em novembro daquele ano, Fábio ganhou o prêmio ESSO de repórter investigativo.
Prólogo
Joaquim era um menino pobre, de uma cidade violenta. Recebera esse nome para ficar homônimo do mártir da independência de seu país. Joaquim José da Silva Xavier era seu nome. Por alguma razão completamente desconhecida cresceu apaixonado por cinema. Seu maior ídolo era William Friedkin. Não por “Operação França”, mas sim por “O exorcista”. Fascinava ao menino, a menina de sua idade possuída pelo demônio e enquanto Regan revirava os olhos, seus olhos brilhavam diante da tela.
Cresceu obcecado pela idéia de melhorar de vida, se possível aliando seus maiores sonhos: cinema e exorcismo. Sim, influenciado pelo filme de sua infância tornou-se pastor evangélico e especializou-se em retirar o mal de dentro das pessoas. Não importava o método. Nem a câmera que usava. Sim, criou um negócio muito rentável: vendia as fitas de seus exorcismos a camelôs, que as revendiam e todos saíam ganhando. Sem pagar impostos, sem empregar ninguém (os empregadores eram seus seguidores), sem se importar com as vítimas e suas famílias, que estavam fragilizadas demais para impedir as filmagens.
Com o volume enorme de pedidos por mais filmes e mais exorcismos, JJ Silva, como fez questão de ser conhecido, montou um império financeiro e com isso pode atingir seus maiores sonhos. Era o mais famoso exorcista do Brasil e o mais bem sucedido diretor de cinema, economicamente falando. Foi quando se deparou com seu maior desafio. E que lhe custaria tudo.
A chuva inundava parte da entrada do Morro do Urubu, restando apenas a entrada pela Rua Silva Xavier. Coincidência ou não, talvez aquele fosse um bom sinal para a ação que iria fazer naquele lugar. Ação era como JJ chamava seus exorcismos. Talvez para não assustar quem não o conhecesse. Mas ainda havia alguém que não o conhecesse? Talvez não, especialmente após seu último vídeo, sucesso absoluto no youtube. O mais bizarro, é que a pirataria apenas fazia aumentar a venda dos seus DVDs caseiros. De qualquer maneira, JJ não gostava de voltar ao lugar de sua origem, mas pensou que se esta ação lhe rendesse um bom vídeo, valeria à pena. E entrar na favela pela rua que tinha seu nome, lhe fez pensar que isto era um bom sinal.
Seu jipe seguia subindo o morro, ganhando altura e distância do asfalto. As leis, regras e códigos de conduta mudavam à medida que o Land Rover avançava em direção à casa 6, da alameda 11. Faltando cem metros para chegarem ao destino, foram parados por cinco homens armados de fuzis e metralhadoras. JJ já se acostumara com visitas a lugares controlados por traficantes e milícias e nunca ia desprevenido ou desprovido de uma autorização do dono do lugar. Se possível, por escrito. Aquele que parecia o chefe do grupo abordou os quatro homens dentro do Land Rover de maneira bastante educada e sutil:
- Vai prá onde, porra? Que que tu qué aqui no morro o filhodaputa?
- Somos a equipe do pastor JJ Silva, e viemos curar uma menina na casa 6, alameda 11.
- Porra, daquele DVD do demônio? Caralho maluco, sabia que a Natália ‘tava fudida assim não. Ela é parceira da galera toda aqui. Mó mina namoral! Me bota na parada também porra. Quero ficá famosão!
- Infelizmente não é possível. Eu já tenho tudo certo com o Linho e ele me deu permissão para irmos até a casa. Estamos atrasados.
- Pô pastor, foi mal aí. Pode ir na boa, Deus abençoe. Mas tem que deixar o carro aqui. Fica sussa que tá na minha.
Os últimos cem metros foram percorridos à pé. JJ amaldiçoou sua mulher que tinha separados sapatos italianos para a ação de hoje: “Você fica muito bem no vídeo com eles”, ela disse. Realmente ficaria bem se eles chegassem inteiros ao barraco.
A casa, se é pode ser chamada assim, estava um caos total. Totalmente revirada, todas as roupas jogadas pela sala e pelo quarto, os móveis no chão e velas acesas punham em risco a segurança de todos. Uma mulata gorda, com o cabelo muito branco e cega do olho direito, rezava ao lado da cama onde Natália se deitava. A luz do Sol não entrava na casa e o cheiro de mofo era misturado ao de urina, provavelmente por causa de uma privada entupida. A falta de luz solar (era um dia chuvoso) e as condições precárias de trabalho irritaram JJ Silva, que temeu pela qualidade de seu vídeo. Chegou a pensar em desistir, mas a menina era sobrinha de Linho, chefe do morro. Achou melhor prosseguir, mesmo em condições ruins. Havia feito um trato com Linho: salvação da menina, vídeo divulgado e vendido. O trato foi aceito sem concessões.
JJ olhou a mulata cega com desdém e pediu que ela se retirasse. Ao tocar o braço da velha para acompanhá-la até a porta, Natália avançou com rapidez e lhe desferiu um violento tapa com o dorso da mão esquerda. A força parecia desproporcional para uma menina de 13 anos e JJ, que nunca havia sido tocado por um cliente, sentiu algo diferente. O ar parecia mais pesado que o normal, o cheiro de urina e mofo misturados quase o sufocava e sua visão ficara turva após o tapa. A mulata sussurrou algo em seu ouvido e JJ deu de ombros. Tentou se recompor e pediu que seu ajudantes montassem a parafernália para gravação da ação. Foi prontamente atendido.
- Daniel, desse lado não. Você sabe que meu melhor perfil é desse lado. Vocês realmente precisam de aulas de fotografia, enquadramento e corte de cenas. Semana passada o João quase me fez vomitar. Parecia “A Bruxa de Blair”.
Um riso tenso ecoou na sala. Era Jonas, o motorista. Jonas era o único que não era evangélico, mas já trabalhavam juntos há vinte anos. Ou seja, desde o início. Jonas era amigo de infância de JJ, e apesar dos arroubos e das humilhações de seu amigo, estava sempre presente. Mesmo nos piores momentos. O riso tenso e o ceticismo eram sua marca registrada.
Após vinte minutos de preparação técnica, JJ conseguiu se recompor e começar a ação. As câmeras foram ligadas, uma luz artificial também. A mulata, agora do lado de fora da sala, continuava rezando, cada vez mais alto, e numa língua que ninguém entendia. Ao se virar para a mulher pedindo silêncio, JJ foi surpreendido mais uma vez com a interrupção de Natália:
- Cala a boca você, viadinho engomado do caralho. Vai se fuder e sai daqui agora, seu merda!
JJ se voltou aos assistentes e falou:
-Liguem tudo agora. Vou começar.
JJ começou a orar. A oração continha palavras de ordem contra Satanás, louvações a Deus e de certa forma parecia como um hino de vitória. Ca(o)ntada antes do tempo. A mulata seguia suas rezas, num canto, cada vez mais alto, pois não havia se intimidado com o pedido de silêncio de JJ. Aliado a essas duas músicas, ao fundo podia se ouvir o funk proibidão da casa vizinha. Sem dúvidas o cenário era aterrador: em qualquer dos quatro sentidos, você se sentiria oprimido. Seja pela visão de uma menina transfigurada em monstro e pela casa em estado caótico, seja pelo cheiro de urina e mofo, seja pela música dissonante resultada da mistura de cântico evangélico, funk proibido e oração inteligível. A opressão do tato era dada pelo clima da casa: quente, apesar da chuva e pesado.
Infelizmente um filme não consegue captar toda essa miríade de sensações, e JJ também não era um diretor tão talentoso assim. A câmera o pegava no ângulo adequado, o som estava ajustado. Começara o show!
- Sai desse corpo, Íncubo maldito! Eu te comando para fora desta menina, Natália, a serva de Deus! Em nome do senhor Jesus!
- Não saio, ela pertence a mim e nada, nem ninguém vai tirá-la de mim. Eu sou invencível!
- Eu sou o representante de Deus, aquele que já te derrotou tantas vezes, eu já te derrotei tantas vezes. Eu é que nunca fui batido, nem por você, nem por ninguém! Eu sou o instrumento de Deus e pelas minhas mãos ele vai te mandar de volta, coisa ruim.
- Esse vídeo será sua ruína, Joaquim. – Natália disse com uma voz pesada, lúgubre. Sua face se ficou encrespada e a impressão é a que ela crescera alguns centímetros. Minutos após menina parecia tranqüila e serena, não passava mais a impressão de demoníaca de antes. Na verdade neste momento, a mulata parara de rezar e tinha vindo ao seu lado e falara-lhe algo ao pé do ouvido.
JJ respondeu às palavras da menina com um violento soco em seu nariz, fazendo o sangue espirrar e a mulata se afastar. A menina continuara serena e plácida. Ao que JJ analisou como um insulto do maldito Íncubo e investiu de novo sobre ela. Dessa vez, Natália tentou se defender, mas não foi capaz de desviar do soco em sua barriga, na altura do plexo celíaco. E levou outro soco na altura da mandíbula. Ao ver a menina ter muitas dificuldades de respirar, Jonas e Daniel se assustaram. Nunca tinham visto JJ ser violento desta maneira. Sempre houve socos, chutes, submissão física. Está nos manuais de exorcismo. Mas nunca com tanta violência em tão pouco tempo.
JJ, que parecia fora de si, continuou a espancar a menina, esquecendo da ação propriamente dita. A mulata continuava a rezar, desta vez em direção a JJ. Parecia até dizer Joaquim algumas vezes. Percebendo seu descontrole, Jonas tentou desligar a câmera e acalmar o amigo. JJ o repreendeu veementemente dizendo que este seria seu melhor vídeo até hoje. E continuou o espancamento. Sob os olhares cúmplices de João, Daniel, Jonas e da mulata, que a esta altura se encolhera num canto e via o espetáculo grotesco crescer a olhos vistos. Sem nunca parar de rezar. Natália já parecia desacordada e JJ ainda estava descontrolado. Batia na menina enquanto proferia palavras de baixo calão em direção a ela e à mulata. Sem nunca deixar o nome de Deus de fora.
Após 45 minutos de espancamento e hinos religiosos entoados à exaustão, JJ se deu por satisfeito. Tinha sua obra prima.
Natália respirava com dificuldades e o sangue lhe escorria pelo ouvido e pelo nariz, enquanto JJ falava com a família da menina e ia em direção ao seu Land Rover. Linho tinha ido ao Morro, mas não conseguira ir até a casa do irmão, mas tinha deixado um agradecimento ao grande pastor JJ Silva e a certeza de apoio da comunidade nas eleições do próximo ano.
Ao entrar no carro, JJ parecia satisfeito com sua ação do dia. Mal vira a mulata o fuzilar com o olhar.
Epílogo
Nair chegou ao IML no mesmo horário de sempre e não ficou muito surpresa quando viu o corpo de uma menina de 13 anos em sua mesa. É muito comum jovens morrerem numa cidade violenta como o Rio de Janeiro. Mesmo de espancamento. Por isso, Nair não ficou surpresa ao ler o prontuário. Ficou surpresa ao levantar o lençol. Melhor dizendo, ficou intrigada com alguns nódulos no corpo da menina. Lembrou-se dos tempos da clínica médica e pensou: “Gomas sifilíticas”. Ficou intrigada. Pediu um exame do nódulo e não ficou surpresa. Natália tinha Sífilis terciária, uma fase avançada da doença. De qualquer maneira, era muito estranho que uma criança de 13 anos tivesse uma fase tão avançada da doença. Nair nunca saberia a resposta a esta pergunta. Só sabia que esta doença causa transtornos de comportamento. O nome do seu Íncubo era Treponema Pallidum. Sífilis tem tratamento e quando tratada em suas fases iniciais tem cura, e o tratamento é ministrado de graça nos postos de saúde da cidade do Rio de Janeiro.
Dez dias após, um inexperiente jornalista recém contratado por prestigioso jornal da cidade, ao ir ao IML para fazer a cobertura de sempre, viu o relatório sobre a mesa de Nair, que era sua fonte. Ficou intrigado com a história de uma menina de 13 anos ter morrido espancada, aparentemente sem motivo algum e ao mesmo tempo ter sífilis terciária, como estava no relatório, acompanhado de gigantesco ponto de interrogação. Fábio era seu nome, e Fábio era fã dos vídeos de JJ. Logo a reconheceu e ligou os pontos. O maior sucesso do agora Bispo JJ Silva, era na verdade uma prova de assassinato.
Em novembro daquele ano, Fábio ganhou o prêmio ESSO de repórter investigativo.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Mrs Wheat
Eu começaria esta história em inglês, se eu fosse como a mãe de Graham, personagem de James Spader em “Sexo, mentiras e videotape”. Na verdade, eu sou anglófilo como a mãe dele sim. Logo, a história começa assim:
- One beer, please. – Said Regina, trying to reach the young man behind the counter in a small club.
- Make it two! One for me, the other for the lady. Don’t worry, this one is on me. – Bruce replied, trying to look nice and heading for the porch.
Regina agradeceu e sorriu para o rapaz. Bruce a convidou para irem à varanda e puxou uma conversa boba. Small talk only.
- Qual seu nome? – Pergunta vinda direto do Mobral das cantadas.
- Regina, e o seu?
- Bruce, prazer.
- Legal seu nome. Inglês, né? – Regina sabia bem conduzir um small talk.
- É. Minha mãe é anglófila...
- Essa frase não me é estranha... Você gosta de cinema?
- Essa frase é de “Sexo, mentiras e videotape”. Adoro Steven Sorderbergh. – Bruce se sentiu tendo total domínio da situação nesse momento. Ficou completamente confiante, a conversa saiu do small talk e entrou em sua seara. Dominava cinema, ou pelo menos achava, e certamente aquela garota ficaria encantada com seus conhecimentos cinematográficos.
- Nossa, eu também! Você sabia que o David Dochovny fez um teste pro papel do Graham? Ah!, e eu adoro a Laura San Giacomo.
Bruce empalideceu. Não se lembrava de mais nenhum filme da Laura San Giacomo, nem fazia idéia que David Duchovny tinha feito teste para ser Graham. Aliás, seria uma mistura bem interessante sua canastrice com a do personagem...
Bruce tentou disfaçar, mas era tarde. A sensação inicial que teve, de que tinha a situação sob controle, desaparecera. Regina rapidamente se transformara num grande enigma a ser desvendado, um cavalo selvagem a ser domesticado.
- Nossa, eu adoro a fotografia de “Traffic”, os tons de amarelo e azul... – Bruce ouvia e calava. A verdade é que ele sabia um pouco de cinema e até conseguia impressionar algumas garotas da sua idade. Mas Regina era diferente. Ela realmente parecia um pouco mais velha e realmente sabia do que estava falando.
- Poxa, tem o “Solaris” também, mas eu prefiro o original... – A cada filme, um soco no estômago. Bruce tinha visto “Solaris”, mas tinha achado chato.
Em dado momento, suas cervejas acabaram. Bruce fora salvo pelo gongo. Ao sair para buscar mais, disse:
- Por favor, não vá embora.
Soou bem estranho. Regina o olhou desconfiada, mas Bruce se saiu bem:
- Porque agora você vai me dever duas cervejas!
O caminho entre a varanda e o bar era relativamente curto. O lugar não estava cheio, mas o bar estava quase inacessível. Por isso, Bruce ganhou preciosos minutos para pensar. Por alguma razão ele queria continuar a conversar com aquela menina (talvez mais adequado fosse chamá-la de mulher). Mas a razão nunca ficou muito clara. Talvez fosse o desafio de uma mulher mais velha e bem versada em assuntos que ele pouco conhecia, mas que apreciava muito. Também não dava para negar: ela era bonita.
- Você demorou um pouco, quase deixei umas moedinhas aqui pra te pagar.
Regina parecia muito confortável com a situação. Ela se sentia tranqüila ao lado daquele cara, que parecia tão assustado a cada informação cinematográfica nova. Mas aquilo lhe dava um ar de pureza e ingenuidade que Regina não estava mais acostumada a ver nos homens. Também não dava para negar: ele era bonito.
- Querida, eu quase tive que dar minha vida pra pegar essas latinhas. Por favor, já que você tá me sacaneando... SHOW ME THE MONEY!
- Rá! Eu ADORO Cameron Crowe!!! Ai… “Quase famosos”…
- Mas essa frase é do “Jerry McGuire”!
- Ah!, é verdade... Que furo! – Regina, notando a insegurança de Bruce, foi generosa e cometeu um erro deliberado.
- Comeron Crowe é o diretor que mais gosto. É incrível como um cara escreveu uma história foda sobre sua própria vida e ainda ganhou um Oscar por isso. Sem contar que ele escreve e dirige, ainda escolhe a trilha sonora...
Regina viu o brilho no olhar de Bruce e se encantou. O rapaz começou a falar com uma eloqüência e conhecimento incomuns para homens da sua idade. Tá certo que ele não sabia muito sobre cinema, mas era um entusiasta da sétima arte. Não tinha o cinismo nem os pudores dos homens de sua idade. E claramente estava tentando a impressionar. “Que fofo!” pensou.
Algumas outras palavras foram ditas sobre Cameron Crowe, mas o papo esquentou mais quando falaram de Oscar.
- A maior injustiça do Oscar de 98 foi “O Resgate do Soldado Ryan” não ter ganhado. Ganhou aquela porcaria de “Shakespeare apaixonado”. – Bruce disse uma de suas muitas frases de efeito e inflamadas.
- Você não sabe o que está dizendo! “Shakespeare apaixonado” tem um roteiro super bem amarrado, tem um figurino incrível e a história é sensacional. Eu sou fã do Tom Stoppard. – Regina retrucou.
- Mas tem o Ben Affleck!!! Nenhum filme com ele pode ser bom...
- E “O resgate...” tem o Matt Damon. No papel título. O Ben Affleck só faz uma ponta no “Shakespeare...”.
- Você tem razão: Game, Set, Match.
- Não acredito que você gosta de tênis! – Regina agora parecia surpresa.
- Gosto muito. Sou fã do Guga, mas o CARA pra mim era o McEnroe.
-Que isso menino, você nem o viu jogar!
- Quanto preconceito... Peguei seu fim de carreira, mas foi o único cara canhoto como eu que eu vi ganhando alguma coisa.
- O Senna era canhoto.
- Você gosta de formula 1? – O surpreso agora era Bruce.
- Já gostei mais, mas meu negócio mesmo é futebol!
- Ah! Para! Só falta dizer que é Botafoguense...
- De certa maneira sim. Minha família é de Turim, na Itália. E lá torço pela Juventus, que inspirou esse belo uniforme que seu time tem. Mas na verdade sou Palmeirense. Só que o Botafogo é meu segundo time por causa da Juve.
Numa boa, isso é coisa de menino! Nenhuma mulher tem um time em São Paulo, na Itália e no Rio de Janeiro. Mulher quando gosta muito, muito, muito de futebol tem um time só. Bruce viu o quanto Regina era diferente.
Ao longo da conversa, Bruce soube de mais alguns detalhes: Regina morava em São Paulo, estava no Rio visitando amigos e voltaria na manhã seguinte. Era fotógrafa e tinha terminado um namoro longo havia um ano. Nunca havia sido casada. Acabou descobrindo sua idade também: 35. Bruce tinha 23.
Mais algumas cervejas e o show estava prestes a começar. Bruce estava ali para ver um amigo tocar e Regina para passar o tempo. E já que não ia fazer nada naquela noite, quem sabe tirar umas fotos de um show underground? Só que o show começou, acabou, começou outro show, acabou outro show e Bruce e Regina ainda conversavam animadamente. E não pareciam arrependidos, descobrindo um ao outro e se encantando um com outro.
Os shows acabaram, a noite também. Com o dia, veio a realidade: teriam que se despedir. O ônibus de Regina partia em uma hora e Bruce tinha prova na faculdade na segunda-feira. Bruce decidiu levá-la na rodoviária, que era perto de onde estavam. Mas foi bastante torturante. A possibilidade de não mais vê-la, de não ter mais uma conversa e tamanha sintonia com alguém, lhe fez deixar cair lágrimas ao ver o ônibus sair. Regina, claramente emocionada também, acenou. E fechou a cortina da janela. Após terem conversado tanto e se descoberto tanto, se esqueceram de ficar com qualquer coisa que pudesse mantê-los em contato: telefone, e-mail, endereço... Ao perceber isso, Bruce ainda esboçou correr atrás do ônibus, mas era tarde. Acabou não vendo que Regina também fazia o mesmo, mas também desistiu. Nessa hora, ambos desejaram que não tivessem gostado tanto um do outro.
Eu começaria esta história em inglês, se eu fosse como a mãe de Graham, personagem de James Spader em “Sexo, mentiras e videotape”. Na verdade, eu sou anglófilo como a mãe dele sim. Logo, a história começa assim:
- One beer, please. – Said Regina, trying to reach the young man behind the counter in a small club.
- Make it two! One for me, the other for the lady. Don’t worry, this one is on me. – Bruce replied, trying to look nice and heading for the porch.
Regina agradeceu e sorriu para o rapaz. Bruce a convidou para irem à varanda e puxou uma conversa boba. Small talk only.
- Qual seu nome? – Pergunta vinda direto do Mobral das cantadas.
- Regina, e o seu?
- Bruce, prazer.
- Legal seu nome. Inglês, né? – Regina sabia bem conduzir um small talk.
- É. Minha mãe é anglófila...
- Essa frase não me é estranha... Você gosta de cinema?
- Essa frase é de “Sexo, mentiras e videotape”. Adoro Steven Sorderbergh. – Bruce se sentiu tendo total domínio da situação nesse momento. Ficou completamente confiante, a conversa saiu do small talk e entrou em sua seara. Dominava cinema, ou pelo menos achava, e certamente aquela garota ficaria encantada com seus conhecimentos cinematográficos.
- Nossa, eu também! Você sabia que o David Dochovny fez um teste pro papel do Graham? Ah!, e eu adoro a Laura San Giacomo.
Bruce empalideceu. Não se lembrava de mais nenhum filme da Laura San Giacomo, nem fazia idéia que David Duchovny tinha feito teste para ser Graham. Aliás, seria uma mistura bem interessante sua canastrice com a do personagem...
Bruce tentou disfaçar, mas era tarde. A sensação inicial que teve, de que tinha a situação sob controle, desaparecera. Regina rapidamente se transformara num grande enigma a ser desvendado, um cavalo selvagem a ser domesticado.
- Nossa, eu adoro a fotografia de “Traffic”, os tons de amarelo e azul... – Bruce ouvia e calava. A verdade é que ele sabia um pouco de cinema e até conseguia impressionar algumas garotas da sua idade. Mas Regina era diferente. Ela realmente parecia um pouco mais velha e realmente sabia do que estava falando.
- Poxa, tem o “Solaris” também, mas eu prefiro o original... – A cada filme, um soco no estômago. Bruce tinha visto “Solaris”, mas tinha achado chato.
Em dado momento, suas cervejas acabaram. Bruce fora salvo pelo gongo. Ao sair para buscar mais, disse:
- Por favor, não vá embora.
Soou bem estranho. Regina o olhou desconfiada, mas Bruce se saiu bem:
- Porque agora você vai me dever duas cervejas!
O caminho entre a varanda e o bar era relativamente curto. O lugar não estava cheio, mas o bar estava quase inacessível. Por isso, Bruce ganhou preciosos minutos para pensar. Por alguma razão ele queria continuar a conversar com aquela menina (talvez mais adequado fosse chamá-la de mulher). Mas a razão nunca ficou muito clara. Talvez fosse o desafio de uma mulher mais velha e bem versada em assuntos que ele pouco conhecia, mas que apreciava muito. Também não dava para negar: ela era bonita.
- Você demorou um pouco, quase deixei umas moedinhas aqui pra te pagar.
Regina parecia muito confortável com a situação. Ela se sentia tranqüila ao lado daquele cara, que parecia tão assustado a cada informação cinematográfica nova. Mas aquilo lhe dava um ar de pureza e ingenuidade que Regina não estava mais acostumada a ver nos homens. Também não dava para negar: ele era bonito.
- Querida, eu quase tive que dar minha vida pra pegar essas latinhas. Por favor, já que você tá me sacaneando... SHOW ME THE MONEY!
- Rá! Eu ADORO Cameron Crowe!!! Ai… “Quase famosos”…
- Mas essa frase é do “Jerry McGuire”!
- Ah!, é verdade... Que furo! – Regina, notando a insegurança de Bruce, foi generosa e cometeu um erro deliberado.
- Comeron Crowe é o diretor que mais gosto. É incrível como um cara escreveu uma história foda sobre sua própria vida e ainda ganhou um Oscar por isso. Sem contar que ele escreve e dirige, ainda escolhe a trilha sonora...
Regina viu o brilho no olhar de Bruce e se encantou. O rapaz começou a falar com uma eloqüência e conhecimento incomuns para homens da sua idade. Tá certo que ele não sabia muito sobre cinema, mas era um entusiasta da sétima arte. Não tinha o cinismo nem os pudores dos homens de sua idade. E claramente estava tentando a impressionar. “Que fofo!” pensou.
Algumas outras palavras foram ditas sobre Cameron Crowe, mas o papo esquentou mais quando falaram de Oscar.
- A maior injustiça do Oscar de 98 foi “O Resgate do Soldado Ryan” não ter ganhado. Ganhou aquela porcaria de “Shakespeare apaixonado”. – Bruce disse uma de suas muitas frases de efeito e inflamadas.
- Você não sabe o que está dizendo! “Shakespeare apaixonado” tem um roteiro super bem amarrado, tem um figurino incrível e a história é sensacional. Eu sou fã do Tom Stoppard. – Regina retrucou.
- Mas tem o Ben Affleck!!! Nenhum filme com ele pode ser bom...
- E “O resgate...” tem o Matt Damon. No papel título. O Ben Affleck só faz uma ponta no “Shakespeare...”.
- Você tem razão: Game, Set, Match.
- Não acredito que você gosta de tênis! – Regina agora parecia surpresa.
- Gosto muito. Sou fã do Guga, mas o CARA pra mim era o McEnroe.
-Que isso menino, você nem o viu jogar!
- Quanto preconceito... Peguei seu fim de carreira, mas foi o único cara canhoto como eu que eu vi ganhando alguma coisa.
- O Senna era canhoto.
- Você gosta de formula 1? – O surpreso agora era Bruce.
- Já gostei mais, mas meu negócio mesmo é futebol!
- Ah! Para! Só falta dizer que é Botafoguense...
- De certa maneira sim. Minha família é de Turim, na Itália. E lá torço pela Juventus, que inspirou esse belo uniforme que seu time tem. Mas na verdade sou Palmeirense. Só que o Botafogo é meu segundo time por causa da Juve.
Numa boa, isso é coisa de menino! Nenhuma mulher tem um time em São Paulo, na Itália e no Rio de Janeiro. Mulher quando gosta muito, muito, muito de futebol tem um time só. Bruce viu o quanto Regina era diferente.
Ao longo da conversa, Bruce soube de mais alguns detalhes: Regina morava em São Paulo, estava no Rio visitando amigos e voltaria na manhã seguinte. Era fotógrafa e tinha terminado um namoro longo havia um ano. Nunca havia sido casada. Acabou descobrindo sua idade também: 35. Bruce tinha 23.
Mais algumas cervejas e o show estava prestes a começar. Bruce estava ali para ver um amigo tocar e Regina para passar o tempo. E já que não ia fazer nada naquela noite, quem sabe tirar umas fotos de um show underground? Só que o show começou, acabou, começou outro show, acabou outro show e Bruce e Regina ainda conversavam animadamente. E não pareciam arrependidos, descobrindo um ao outro e se encantando um com outro.
Os shows acabaram, a noite também. Com o dia, veio a realidade: teriam que se despedir. O ônibus de Regina partia em uma hora e Bruce tinha prova na faculdade na segunda-feira. Bruce decidiu levá-la na rodoviária, que era perto de onde estavam. Mas foi bastante torturante. A possibilidade de não mais vê-la, de não ter mais uma conversa e tamanha sintonia com alguém, lhe fez deixar cair lágrimas ao ver o ônibus sair. Regina, claramente emocionada também, acenou. E fechou a cortina da janela. Após terem conversado tanto e se descoberto tanto, se esqueceram de ficar com qualquer coisa que pudesse mantê-los em contato: telefone, e-mail, endereço... Ao perceber isso, Bruce ainda esboçou correr atrás do ônibus, mas era tarde. Acabou não vendo que Regina também fazia o mesmo, mas também desistiu. Nessa hora, ambos desejaram que não tivessem gostado tanto um do outro.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Sem piedade
O frio cortava meu corpo sem piedade. O vento batia em minha face, entrava pelas aberturas da roupa, invadia meu ser e a impressão que eu tinha, era a de que cada lágrima fosse congelar ao sair dos meus olhos. Sem piedade. Assim a vida agiu na manhã anterior, tal qual o frio, com este cansado corpo.
Moro na chamada Fronteira da Paz, Santana do Livramento/Rivera, no sul do Brasil. Num rancho herdado por mim após uma longa batalha contra meus dois meio-irmãos. Durante trinta anos, fui vinicultor. Hoje, me sobra pouco a fazer, após a chegada da Almadén. Meu grande legado é a sede do rancho, minha casa.
A sede se situa exatamente numa área chamada de fronteira seca. Metade no Uruguai, metade no Brasil. A linha imaginária fronteiriça corta a casa ao meio, deixando uma parte da casa no Uruguai e outra no Brasil. O mais interessante é que a construção, que data de 1917, não foi programada para estar na fronteira. Aliás, só descobrimos isso após o Google Earth. Meu neto Evandro, menino de muitas qualidades, nos deu essa surpresa. Ao sabermos dessa peculiaridade, passamos a explorá-la e mudamos a disposição de nossos cômodos, de maneira a deixar nossa cama metade no Uruguai, metade no Brasil. Só por diversão. Léa adorava esses jogos.
O inverno este ano tem sido bastante rigoroso, mesmo para nossos padrões. A colheita foi das piores de todos os tempos por causa das geadas constantes. Muito dinheiro foi perdido, muita gente ficou com fome, muitos meninos continuaram virgens sem a ajuda do álcool, muitas vidas se perderam. O frio pode fazer isso tudo. O frio pode destruir tudo. Inclusive a sanidade de uma pessoa comum. Como eu. Como Léa.
Léa acordou um pouco mais tarde naquela manhã de julho. Sabendo que tinha ficado toda ensopada por causa da febre e que isso tinha impedido de dormir bem e se concentrar nos afazeres da casa, Léa se irritou. Imagine o frio! As noites vinham sendo essa rotina de sentir calor, ficar suada, sentir frio, trocar de roupa, sentir calor, ficar suada, sentir frio, trocar de roupa... Ninguém pode ser feliz assim. Ninguém fica são assim. Quatro dias estava Léa sem dormir e sem conseguir se alimentar. Ao tentar ajudar, percebi que seu lado, o lado uruguaio da cama, estava totalmente encharcado e recomendei que fôssemos ao médico naquela manhã mesmo. Mas Evandro vinha passar uma semana conosco e teríamos que buscá-lo na cidade. Ficaria para o dia seguinte.
Ao longo daquele dia, Léa se sentiu mais prostrada e nem foi ao encontro de nosso neto. Nem viu que ele trouxera um desses computadores que estão na moda agora, bem fininhos, que dá pra carregar na mochila. Presente do neto pródigo aos velhos avôs, moradores da fronteira.
Quando chegamos em casa, encontramos Léa sem vida no chão da cozinha, com a porta da geladeira aberta. Um filete de sangue já coagulado escorria pela sua boca e uma garrafa de água jazia espatifada no chão. Léa estava urinada e evacuada. A visão que esta velha retina nunca gostaria de ter visto. Ralph, nosso cachorro, a lambia sofregamente, tentando em vão reanimar sua, um dia, tão alegre dona.
Após trinta e sete anos de companhia, eu estava só de novo. Léa morrera de maneira totalmente inesperada. O médico que constatou sua morte era amigo de Evandro e me medicou após uma crise hipertensiva naquele dia. A noite se aproximava e a agonia da solidão e o frio só cresciam. Sentia cada parte do meu corpo petrificada de medo, frio, angústia e desespero. Ainda assim, me dispus a tentar dormir uma última vez em nossa cama. Um tributo a ser pago por tantos anos de convivência, carinho e dedicação. Na mesma hora de sempre, me deitei. Não havia edredom, cobertor ou aquecedor interno que fizesse o frio daquela noite passar. Eu só queria dormir e esquecer o que acontecera e torcer pra que quando acordasse tudo não passasse de um sonho. Pesadelo.
É impressionante o poder da autossugestão.
No meio da noite, senti o maior frio de minha vida. É como se a Antártida estivesse debaixo de meus cobertores. Me senti perdido. Ao tentar pagar meu tributo ao meu grande amor, tive um sono muito perturbado, e eu, que me mantinha minhas verdades, convicções e inclusive posições (fossem elas quais fossem, mesmo na cama) intactas, acabei mudando de posição durante a noite. Acordei do lado uruguaio, o lado de Léa, totalmente perdido, com frio, sem saber se o que eu vivia era verdade ou sonho. Sem saber como poderia eu estar com tanto frio, tão molhado e nu. Nunca havia soltado um grito tão estridente e tão aterrador. Senti medo. Medo da vida sem Léa. Medo de sentir esse frio para sempre. O frio de quem rola na cama e se vê sem cobertas na noite mais fria do ano, no lugar mais frio conhecido. O frio da solidão eterna.
Os dias se passaram, nossos filhos chegaram para o enterro. Todos menos Cláudio, pai de Evandro, que não conseguiu vôo de São Paulo a Porto Alegre. O apoio da família e dos amigos, as lembranças e andar para frente, ajudam a suportar a dor. E como tudo na vida, um dia a dor passou.
Com a ajuda de Cláudio e Evandro, vendi o rancho. Que virou atração turística da cidade, graças ao Google Earth. Sei meses após fui morar com eles numa cidade menos fria. Mas o inverno ainda me traz medo. E saudade... Acrescentando ao poeta, saudade não é só arrumar o quarto do filho que morreu. Saudade é dormir e não saber onde se está ao acordar, tamanho o desespero e a impotência, mesmo só tendo trocado de lado na cama. Foi o que senti naquele dia ao acordar e gritar. Saudade. Sem piedade.
O frio cortava meu corpo sem piedade. O vento batia em minha face, entrava pelas aberturas da roupa, invadia meu ser e a impressão que eu tinha, era a de que cada lágrima fosse congelar ao sair dos meus olhos. Sem piedade. Assim a vida agiu na manhã anterior, tal qual o frio, com este cansado corpo.
Moro na chamada Fronteira da Paz, Santana do Livramento/Rivera, no sul do Brasil. Num rancho herdado por mim após uma longa batalha contra meus dois meio-irmãos. Durante trinta anos, fui vinicultor. Hoje, me sobra pouco a fazer, após a chegada da Almadén. Meu grande legado é a sede do rancho, minha casa.
A sede se situa exatamente numa área chamada de fronteira seca. Metade no Uruguai, metade no Brasil. A linha imaginária fronteiriça corta a casa ao meio, deixando uma parte da casa no Uruguai e outra no Brasil. O mais interessante é que a construção, que data de 1917, não foi programada para estar na fronteira. Aliás, só descobrimos isso após o Google Earth. Meu neto Evandro, menino de muitas qualidades, nos deu essa surpresa. Ao sabermos dessa peculiaridade, passamos a explorá-la e mudamos a disposição de nossos cômodos, de maneira a deixar nossa cama metade no Uruguai, metade no Brasil. Só por diversão. Léa adorava esses jogos.
O inverno este ano tem sido bastante rigoroso, mesmo para nossos padrões. A colheita foi das piores de todos os tempos por causa das geadas constantes. Muito dinheiro foi perdido, muita gente ficou com fome, muitos meninos continuaram virgens sem a ajuda do álcool, muitas vidas se perderam. O frio pode fazer isso tudo. O frio pode destruir tudo. Inclusive a sanidade de uma pessoa comum. Como eu. Como Léa.
Léa acordou um pouco mais tarde naquela manhã de julho. Sabendo que tinha ficado toda ensopada por causa da febre e que isso tinha impedido de dormir bem e se concentrar nos afazeres da casa, Léa se irritou. Imagine o frio! As noites vinham sendo essa rotina de sentir calor, ficar suada, sentir frio, trocar de roupa, sentir calor, ficar suada, sentir frio, trocar de roupa... Ninguém pode ser feliz assim. Ninguém fica são assim. Quatro dias estava Léa sem dormir e sem conseguir se alimentar. Ao tentar ajudar, percebi que seu lado, o lado uruguaio da cama, estava totalmente encharcado e recomendei que fôssemos ao médico naquela manhã mesmo. Mas Evandro vinha passar uma semana conosco e teríamos que buscá-lo na cidade. Ficaria para o dia seguinte.
Ao longo daquele dia, Léa se sentiu mais prostrada e nem foi ao encontro de nosso neto. Nem viu que ele trouxera um desses computadores que estão na moda agora, bem fininhos, que dá pra carregar na mochila. Presente do neto pródigo aos velhos avôs, moradores da fronteira.
Quando chegamos em casa, encontramos Léa sem vida no chão da cozinha, com a porta da geladeira aberta. Um filete de sangue já coagulado escorria pela sua boca e uma garrafa de água jazia espatifada no chão. Léa estava urinada e evacuada. A visão que esta velha retina nunca gostaria de ter visto. Ralph, nosso cachorro, a lambia sofregamente, tentando em vão reanimar sua, um dia, tão alegre dona.
Após trinta e sete anos de companhia, eu estava só de novo. Léa morrera de maneira totalmente inesperada. O médico que constatou sua morte era amigo de Evandro e me medicou após uma crise hipertensiva naquele dia. A noite se aproximava e a agonia da solidão e o frio só cresciam. Sentia cada parte do meu corpo petrificada de medo, frio, angústia e desespero. Ainda assim, me dispus a tentar dormir uma última vez em nossa cama. Um tributo a ser pago por tantos anos de convivência, carinho e dedicação. Na mesma hora de sempre, me deitei. Não havia edredom, cobertor ou aquecedor interno que fizesse o frio daquela noite passar. Eu só queria dormir e esquecer o que acontecera e torcer pra que quando acordasse tudo não passasse de um sonho. Pesadelo.
É impressionante o poder da autossugestão.
No meio da noite, senti o maior frio de minha vida. É como se a Antártida estivesse debaixo de meus cobertores. Me senti perdido. Ao tentar pagar meu tributo ao meu grande amor, tive um sono muito perturbado, e eu, que me mantinha minhas verdades, convicções e inclusive posições (fossem elas quais fossem, mesmo na cama) intactas, acabei mudando de posição durante a noite. Acordei do lado uruguaio, o lado de Léa, totalmente perdido, com frio, sem saber se o que eu vivia era verdade ou sonho. Sem saber como poderia eu estar com tanto frio, tão molhado e nu. Nunca havia soltado um grito tão estridente e tão aterrador. Senti medo. Medo da vida sem Léa. Medo de sentir esse frio para sempre. O frio de quem rola na cama e se vê sem cobertas na noite mais fria do ano, no lugar mais frio conhecido. O frio da solidão eterna.
Os dias se passaram, nossos filhos chegaram para o enterro. Todos menos Cláudio, pai de Evandro, que não conseguiu vôo de São Paulo a Porto Alegre. O apoio da família e dos amigos, as lembranças e andar para frente, ajudam a suportar a dor. E como tudo na vida, um dia a dor passou.
Com a ajuda de Cláudio e Evandro, vendi o rancho. Que virou atração turística da cidade, graças ao Google Earth. Sei meses após fui morar com eles numa cidade menos fria. Mas o inverno ainda me traz medo. E saudade... Acrescentando ao poeta, saudade não é só arrumar o quarto do filho que morreu. Saudade é dormir e não saber onde se está ao acordar, tamanho o desespero e a impotência, mesmo só tendo trocado de lado na cama. Foi o que senti naquele dia ao acordar e gritar. Saudade. Sem piedade.
Assinar:
Postagens (Atom)
